O Movimento Salvar o Circuito da Boavista foi formado em 2014, por um grupo de entusiastas e pilotos, e teve como seu primeiro acto público uma manifestação de rua no traçado do circuito, em Dezembro desse ano.
Em 2017, em época de eleições para a presidência da FPAK, este colectivo organizou a sua primeira tertúlia, que encheu uma sala do hotel Crowne Plaza, na Avenida da Boavista, e contou com a presença de um dos obreiros do Circuito na era moderna, o ex-vereador e ex-Vice-Presidente da Câmara do Porto. Presentes estiveram também os dois candidatos à liderança da FPAK, Manuel Mello Breyner (então Presidente) e Ni Amorim (actual Presidente), que então revelaram forte divergência acerca da intenção do executivo de Rui Moreira de reactivar o Circuito.
Quase cinco anos volvidos sem que tenha havido novidades acerca do evento e, aproximando-se um fim de ciclo na gestão da autarquia, o Movimento Salvar o Circuito da Boavista entendeu que era a altura certa para acordar de novo o tema e recordar a importância histórica e estratégica desta marca do Porto. Assim, aceitou o desafio dos Fenianos Clássicos – secção do Clube Fenianos Portuenses dedicada aos automóveis clássicos – e, no Salão Nobre da sede daquele clube, reuniu uma centena de entusiastas, que assistiram à tertúlia e a filmes inéditos das edições dos anos 50, pertencentes ao espólio do Museu do Caramulo.


A escolha da data deveu-se também ao facto de se contarem dez anos desde a última edição do evento e um século desde o Quilómetro Lançado da Avenida da Boavista, aquela que foi uma das primeiras provas de desporto motorizado realizadas na cidade. Para falar sobre esse tema e apresentar o seu novo livro “Circuito das Beiras”, foi convidado o Eng. José Barros Rodrigues.
Para viajar até aos anos 50 e 60 e ao período áureo do Grande Prémio da Boavista, o primeiro painel contou com dois pilotos participantes: Manuel Spratley e Fernando Batista, mas também com José Filipe Nogueira que trouxe as recordações do seu saudoso pai, Joaquim Filipe Nogueira, que em 1956 marcou a história do circuito com uma extraordinária performance aos comandos do Ferrari 750 Monza, que terminou com um acidente violento quando lutava pela vitória. Além das recordações, Filipe Nogueira trouxe consigo o capacete usado nessa mesma prova, com as marcas do impacto bem evidentes. Um precioso pedaço de história do automobilismo nacional.


No painel final, falou-se do passado recente do circuito – e do eventual futuro – com os pilotos e dirigentes da ANPAC – Associação Portuguesa de Pilotos de Automóveis Clássicos, José Fafiães e Kiko Mora, que é também dirigente da FPAK. A eles juntaram-se Vladimiro Feliz e o ex-Presidente da Câmara do Porto e mentor da “terceira vida” do Circuito da Boavista, Rui Rio. Mora e Fafiães sublinharam a lacuna que representa a ausência de uma prova desta magnitude no calendário nacional, particularmente tendo em conta a actual inactividade do Circuito Vasco Sameiro. Realçaram também o facto daquele Circuito ter sido a motivação para muitos regressos e outra tantas estreias nas lides do automobilismo clássico por parte de diferentes pilotos.
Rui Rio e Vladimiro Feliz, viveram ambos intensamente o outro lado do evento, e trouxeram, por isso, um testemunho único. Feliz recordou o impacto indirecto na economia do Porto e as oportunidades geradas pelo Circuito que ainda hoje dão frutos, nomeadamente nos repetidos lançamentos internacionais de automóveis que vão acontecendo na cidade. O ex-Vice-Presidente e candidato à Presidência nas últimas eleições, sublinhou o papel que a prova tinha na criação de uma imagem de sofisticação da cidade e na atracção de um turismo de valor acrescentado.
Vladimiro Feliz falou ainda de todo o processo de optimização e agilização da montagem e desmontagem do circuito ao longo das várias edições e de como o trabalho desenvolvido serviu de modelo para outros circuitos urbanos noutros pontos do mundo.
Recorde-se que, em 2021, enquanto candidato à Presidente da Câmara, Feliz assumiu o compromisso de trazer de volta o Grande Prémio, com o E-TCR e as corridas de históricos, caso fosse eleito.


Rio, por seu lado, começou por enaltecer o Movimento Salvar o Circuito da Boavista, não só a iniciativa, mas todos aqueles que mantém viva a memória do evento e não desistem de lutar pelo seu regresso, afirmando que, por isso, se sentiu na obrigação de marcar presença.
Em seguida, o ex-autarca lamentou a decisão de não se honrar o compromisso de longo-prazo que o Circuito da Boavista representava, com claros prejuízos para a cidade, por motivos que nada têm a ver com o evento e seus custos. 800 mil euros era, segundo Rio, o custo que o evento tinha para a cidade depois de pagas todas as despesas e apurados os proveitos.
“Tratando-se de um evento bienal, isso representava um peso orçamental anual de apenas 400 mil euros. Valor esse que a oposição gostava de referir como prejuízo, mas mais não era do que um investimento na projecção e desenvolvimento da cidade, como o é qualquer evento cultural. Só que este, faz parte da história do Porto, ao contrário de outros”. Questionados sobre quanto tempo seria necessário para voltar a trazer o evento ao nível de optimização de custos da última edição, os dois políticos concordaram que só numa hipotética terceira reedição se conseguiria recuperar o que se perdeu com este hiato de dez anos.
Rio assumiu a paternidade da ideia do regresso do Circuito da Boavista em 2003 e admitiu que era uma das obras de que mais se orgulhava do seu tempo à frente dos destinos da cidade. Por fim, lamentou que não se vislumbrasse no horizonte político outro potencial candidato que pudesse recuperar o evento.

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